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A vontade de Deus é que todos os cristãos sejam prósperos?

Cada vez mais cristãos por todo o mundo creem que a prosperidade material é um direito de todos os cristãos. Eles creem que Deus espera que eles peçam por ela e a antecipem como um cumprimento certo da sua promessa. Não há dúvidas de que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento ensinam que o fiel será abençoado por Deus.

Mas essa bênção necessariamente sempre incluirá prosperidade material? Todos os cristãos podem ter a expectativa de se tornarem ricos? Ao olharmos para a Bíblia, tal expectativa é dissipada.

Em primeiro lugar, Paulo frequentemente mostrava que os seus sofrimentos não influenciavam negativamente sua plenitude de vida. Em suas epístolas, ele apresenta o seu próprio sofrimento como parte da evidência de que ele era abençoado e chamado por Deus (por exemplo 2Co 4.8-18; 6.3-10; 11.13-33; 12.1-10; Gl 6.17). Em determinada ocasião ele descreveu a si mesmo como pobre, “mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo” (2Co 6.10). Em Efésios, escrevendo da prisão, Paulo menciona a riqueza cinco vezes — referindo-se ao evangelho e a todos os seus tesouros. Ele próprio era um pobre prisioneiro privado de muitas necessidades humanas básicas, mas via a si mesmo como sendo rico.

Em Filipenses, também escrevendo da prisão, Paulo disse a respeito das suas necessidades financeiras:

Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez. (Fp 4.11-12)

Ele infere que riqueza não é necessariamente um sinal da bênção de Deus, mas contentamento sim. De fato, nessa epístola, as palavras alegriaalegrai-vosalegres e contentes aparecem 16 vezes. Ele diz que devemos nos alegrar sempre no Senhor (Fp 4.4). Essa também é a epístola que fala a respeito da paz de Deus que excede todo o entendimento (4.7). Então contentamento, paz e alegria caracterizam um cristão verdadeiramente rico.

Há alguns anos, eu fiz um estudo de todos os pontos do Novo Testamento onde Jesus é apresentado como um modelo para seguirmos. Dos 29 textos que eu estudei mais profundamente, quatro eram afirmações gerais chamando os leitores a seguirem Cristo; dois eram a respeito de perdoar como Jesus perdoou (Ef 4.32; Cl 3.13) e dois eram a respeito de mansidão e bondade (2Co 10.1; 11.17). Os outros 21 eram a respeito do exemplo da servidão de Jesus e dos seus sofrimentos.¹ Então, quando encoraja a generosidade, Paulo dá o exemplo de Jesus e diz: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2Co 8.9). O próprio Jesus disse: “A vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15). Na parábola do homem rico e do pobre mendigo Lázaro coberto de chagas, é o mendigo que vai para o céu e o rico que sofre no inferno (Lc 16.19-31). Nós podemos seguramente concluir que o Novo Testamento não inclui o sucesso material em sua descrição básica do que significa ser um seguidor de Cristo.

Mais perigo do que bênção

Terceiro, o Novo Testamento parece mostrar a riqueza mais como um perigo do que como uma bênção. Ele enfatiza os perigos mais do que o desejo da riqueza. Jesus determinou o tom dessa ênfase com a frase: “E Jesus, vendo-o assim triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Lc 18.24-25). Essa declaração é citada em todos os três evangelhos sinóticos. Mas com que frequência ouvimos pregadores repeti-la hoje? Jesus realça o seu ensino a respeito dos perigos da riqueza em sua parábola sobre o rico fazendeiro que conseguiu riqueza suficiente para garantir uma aposentadoria confortável. Ele é chamado de “louco” em sua morte. Jesus explica dizendo: “Assim é o que entesoura para si mesmo e não é rico para com Deus” (Lc 12.16-21). Em seu chamado evangelístico para os futuros discípulos negarem a si mesmos, tomarem cada um a sua cruz e segui-lo, Jesus adverte: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36). Se negligenciarmos esse aspecto do chamado de Cristo na nossa pregação do evangelho, seremos culpados de distorcer o evangelho assim como os liberais de uma geração passada.

Quando olhamos 1 Timóteo 6, encontramos mais advertências sobre os perigos da riqueza. Paulo diz que é correto querer necessidades básicas como comida e roupas: “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes” (1Tm 6.8). Além dessa necessidade, a riqueza não é grande coisa. Paulo diz: “Grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele” (6.6-7). Não é essencial que sejamos ricos, mas é essencial que sejamos piedosos e contentes. Em outro lugar, Paulo diz que ele está contente mesmo diante do sofrimento: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.10). A ideia de força na fraqueza é outra doutrina bíblica negligenciada hoje em dia.

Voltemos às advertências. Em 1 Timóteo 6.9-10, Paulo diz:

Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.

Outra forte advertência está na parábola do semeador, onde Jesus fala da semente lançada entre espinhos: “Os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera” (Mc 4.19). Essas duas fortes advertências nos dizem como o desejo por riquezas pode causar um enorme prejuízo nos enganando para que abandonemos o caminho de Deus pelo caminho da suposta prosperidade. Infelizmente, hoje encontramos muitas pessoas que caíram exatamente nessas armadilhas. Elas arruinaram sua vida espiritual e condenaram a si mesmas a uma vida infeliz. À luz de advertências como essas a respeito dos perigos do desejo de ser rico, aliadas ao fato de tantas pessoas terem suas vidasarruinadas dessa maneira, os pregadores devem ter cuidado de não inflamar esse desejo ao prometer riquezas para os seus ouvintes.

Tesouros no céu

Ao mesmo tempo, a Bíblia não tem uma abordagem completamente negativa quanto à questão da riqueza. Jesus disse: “Ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam” (Mt 6.20). Essa declaração é feita no contexto do que fazer com a riqueza. Usando uma linguagem familiar às pessoas do mundo dos negócios, Jesus aconselha que façamos o mais inteligente investimento no lugar mais seguro de todos: o céu. Pregadores devem encorajar os cristãos a buscar a prosperidade eterna.

Em 1 Timóteo 6, Paulo pede que os ricos sejam ricos em generosidade: “Que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida” (6.18-19). Nós investimos no Banco do Céu quando damos ao necessitado. Observamos anteriormente que Paulo disse em 1 Timóteo 6 que riqueza é menos importante que piedade e contentamento. Agora ele está dizendo que generosidade abundante também é importante. Os muitos ensinos na Bíblia a respeito de dar mostram que para um cristão bíblico, essa é uma das grandes ambições na vida. Paulo diz que os cristãos macedônios estavam “pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos” (2Co 8.4).

Quando insta os cristãos coríntios a contribuir com as necessidades da igreja em Jerusalém, Paulo diz: “Nosso desejo não é que outros sejam aliviados enquanto vocês são sobrecarregados, mas que haja igualdade” (2Co 8.13, NVI). Em um mundo de evidente desigualdade, nós damos generosamente para trazer alguma medida de justiça e igualdade. Essa necessidade urgente de justiça no mundo levou muitos cristãos a tomar uma decisão de adotar um estilo de vida simples — evitando a extravagância e dando tanto quanto possível para a obra de Deus e para os necessitados. Como alguém disse certa vez: “Nós vivemos de maneira simples para que outros possam simplesmente viver”. Em apoio a essa ideia de um estilo de vida simples, nós remetemos à declaração de Jesus: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra” (Mt 6.19).

¹ Veja Ajith Fernando, “Jesus: The Message and Model of Mission,” Global Missiology for the 21st Century, editado por William D. Taylor, (Grand Rapids: Baker Academic, 2000), pp. 209-210. [em inglês]

Exemplo e Herói

Sexto, muitos dos heróis e devotos no Novo Testamento eram pobres. Jesus é o nosso principal exemplo e herói. Ele se tornou pobre para que nós pudéssemos nos tornar ricos (2Co 8.9). Ele “se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp 2.7). Alguns dizem que Jesus tomou a maldição para que não precisássemos viver sob ela, e portanto, não sofreremos como ele sofreu. Mas em ambas passagens Jesus nos é apresentado como um exemplo a ser seguido. Paulo até mesmo diz que deseja ter “a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte” (Fp 3.10). Há uma profundidade de unidade com Cristo que experimentaremos somente quando sofrermos como ele sofreu. E para nós, união com Cristo é a maior riqueza.

Muitos dos seguidores seguidores de Jesus no Novo Testamento eram pobres. Os macedônios eram heróis porque deram, apesar de sua pobreza. “Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia; porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade” (2Co 8.1-3). A generosidade desses pobres cristãos é descrita utilizando a palavra riqueza. Em uma passagem de repreensão à igreja por considerar o rico como superior ao pobre, Tiago diz: “Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam?” (Tg 2.5). Os crentes pobres são, na verdade, ricos!

Nas cartas às sete igrejas em Apocalipse, apenas duas igrejas não recebem uma repreensão. E ambas são descritas como não possuindo o que o mundo considera como sucesso material. A primeira é a igreja em Esmirna. O anjo fala de sua “pobreza”, e imediatamente diz: “Mas tu és rico” (Ap 2.9). A segunda é a igreja em Filadélfia, que é descrita como tendo “pouca força” (Ap 3.8). Elas eram duas raras exceções de igrejas tendo estilos de vida aprovados por Deus em um tempo de grande compromisso. E elas eram pobres e fracas! Não é interessante como cristãos pobres nessas passagens são descritos em termos que sugerem que eles eram ricos? Esse senso de ser rico constitui um importante aspecto da identidade de um cristão. Se estamos felizes com a nossa identidade, então certamente seremos pessoas felizes.

A igreja mãe em Jerusalém consistia principalmente de pessoas pobres. Então outras igrejas tinham que ajudá-la. Não há nada que diga que eles eram pobres por que havia algo de errado em suas crenças ou ações. Era um tempo de dificuldade econômica em Jerusalém, isso pelo fato de que muitos aposentados haviam perdido seus benefícios de aposentadoria quando se tornaram cristãos. Portanto, os cristãos em Jerusalém tinham grandes necessidades econômicas, as quais cristãos de outras partes do mundo atenderam através de suas doações missionárias.

É verdade que o Antigo Testamento promete prosperidade como uma das bênçãos da fidelidade a Deus (por exemplo Dt 28.11). Mas devemos lembrar que tais promessas foram feitas a uma nação justa sob a Antiga Aliança. O Antigo Testamento frequentemente descreve a dor dos indivíduos justos daquela nação que tinham dificuldade com o fato de que os perversos estavam prosperando enquanto eles não. Muitos dos lamentos nos Salmos mencionam essa dificuldade. O Salmo 73 é um clássico. Aqui, a dificuldade de Asafe com relação à sua falta de prosperidade comparada à prosperidade do perverso só é resolvida quando ele percebe que Deus julgará o perverso com justiça. Os livros de Jó e Habacuque ressaltam a fé de pessoas genuinamente piedosas que honram a Deus, recusando desistir de confiar nele em meio a terrível sofrimento. O Antigo Testamento, então, não garante ao justo a prosperidade. De fato, assim como o Novo Testamento, ele também adverte as pessoas frequentemente quanto aos perigos da prosperidade (por exemplo Dt 6.10-25; 8.11-20; 32.15-18).

Por último, a história mostra que alguns dos maiores períodos de crescimento da igreja aconteceram quando os cristãos eram realmente pobres e passavam dificuldade. Isso aconteceu recentemente na China, no Nepal e na Coreia (nos primeiros anos de crescimento da igreja), e agora no Irã, onde há crescimento significativo. Muitas qualidades, tais quais confiança como de uma criança, são mais fáceis para o pobre desenvolver em sua vida. Essa é uma razão pela qual Jesus disse que é tão difícil para o rico entrar no reino de Deus.

O plano de Deus

Não há dúvida de que a Bíblia ensina que pessoas que tem fé e são ricas têm um importante papel no plano de Deus. Algumas pessoas exemplares na Bíblia, como Abraão (Gn 13.2), Barzilai (2Sm 19.32), a mulher sunemita que ajudou Elias (2Rs 4.8), e José de Arimateia (Mt 27.57), foram especificamente descritas como sendo ricas. Após dizer que o rico não deve ser orgulhoso, Paulo diz que “Deus […] tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento” (1Tm 6.17). Ter prazer nas coisas que o dinheiro pode comprar não é necessariamente errado. Ao mesmo tempo é significativo que cada uma dessas quatro pessoas prósperas e piedosas mencionadas tenham sido elogiadas por sua generosidade.

Cristãos ricos podem honrar a Cristo especialmente ao serem humildes, generosos e piedosos enquanto são ricos. Cristãos pobres podem honrá-lo especialmente sendo contentes, cheios de fé, generosos e piedosos enquanto são pobres. É evidente que, na Bíblia, a riqueza é bem menos importante que o contentamento, a alegria, a paz, a santidade, o amor e a generosidade. Pessoas com tais características são, de acordo com a Bíblia, verdadeiramente prósperas, quer sejam economicamente ricas ou pobres.²

² Veja Jonathan Lunde e Craig Blomberg, Christians in an Age of Wealth: A Biblical Theology of Stewardship (Grand Rapids: Zondervan, 2013) para uma discussão sobre muitas questões discutidas neste artigo. [em inglês]

 

Categories:   Comportamento, Destaque, Finanças

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