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A natureza da liberdade cristã

 

Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. 14 Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. 15Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos. (Galatas 5.13-15)

“Liberdade” é uma palavra que anda na boca de todo mundo nos dias de hoje. Há diferentes formas de liberdade, e muitas e diferentes pes­soas a advogam e solicitam. Temos o nacionalista africano que obteve “Uhuru” para o seu país: liberdade do governo colonial. Temos o eco­nomista que crê no comércio livre, na suspensão das tarifas. Temos o capitalista que não gosta do controle central porque impede o livre empreendimento, e temos o comunista que reivindica a libertação do proletariado da exploração capitalista. Temos as quatro famosas liber­dades pela primeira vez enunciadas pelo Presidente Roosevelt, em 1941, quando ele falou de “liberdade de falar em qualquer parte, liberdade de prestar culto em qualquer lugar, liberdade de miséria por toda par­te, e liberdade do medo em qualquer lugar”.

Que tipo de liberdade é a liberdade cristã? Em primeiro lugar, é uma liberdade de consciência. De acordo com o evangelho cristão, nenhum homem é verdadeiramente livre até que Jesus Cristo o liberte do seu sentimento de culpa. E Paulo diz aos gálatas que eles foram “chamados” para essa liberdade. Isso também se aplica a nós. Nossa vida cristã não começa com a deci­são de seguir a Cristo, mas com o chamamento de Deus para fazê-lo. Em sua graça, ele tomou a iniciativa enquanto ainda nos encontráva­mos em nossa rebeldia e pecado. Nesse estado nós não tínhamos dese­jo de abandonar o pecado para abraçar a Cristo, nem tínhamos a capacidade de fazê-lo. Mas ele veio até nós e nos chamou para a liberdade.

Paulo sabia disso de experiência própria, pois Deus o “chamou pe­la sua graça” (1:15). Os gálatas o sabiam também de sua própria expe­riência, pois Paulo queixa-se de que eles estavam desertando muito ra­pidamente daquele que os “chamou na graça de Cristo” (1:6). Os cristãos de hoje também o sabem. Se somos cristãos, não é por nossos pró­prios méritos, mas pela vocação graciosa de Deus.

“Chamados à liberdade!” Este é o significado de ser cristão, e é trágico que o homem comum não saiba disso. A imagem popular do cristianismo de hoje não é liberdade alguma, mas, sim, uma servidão cruel e limitante. Mas cristianismo não é escravidão; é um chamamen­to da graça para a liberdade. Também não é privilégio excepcional de uns poucos crentes, mas, antes, a herança comum de todos os cristãos, sem distinção. Por isso é que Paulo acrescenta “irmãos”. Cada irmão cristão e cada irmã cristã foi chamado por Deus, e foi chamado para a liberdade.

Quais são as implicações da liberdade cristã? Será que inclui liber­dade de todo o tipo de restrição e repressão? Será que a liberdade cris­tã é uma outra palavra para anarquia? O próprio Paulo foi acusado de ensinar isso, e foi uma zombaria comum que os seus detratores usa­ram. Assim, tendo afirmado que fomos chamados para a liberdade, ele imediatamente explica o que é a liberdade para a qual fomos cha­mados, a fim de esclarecer falsas interpretações e protegê-la de abuso irresponsável. Resumindo, é liberdade da terrível servidão de buscar o merecimento do favor de Deus; não é liberdade de todo o controle.

 

  1. A Liberdade Cristã Não É Liberdade para Satisfazer a Carne (v. 13)

 

Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne. “A carne”, na linguagem do após­tolo Paulo, não é aquilo que reveste nosso esqueleto, mas a nossa na­tureza humana caída, que nós herdamos de nossos pais e que eles herdaram dos seus, e que foi distorcida pelo egocentrismo e, portanto, inclina-se ao pecado. Não devemos usar a nossa liberdade cristã para satisfazer e dar “ocasião” a essa “carne”. A palavra grega aqui tra­duzida por “ocasião” (aphorme) era usada no contexto militar referindo-se a um lugar do qual se lança uma ofensiva, ou uma base de operações. Portanto significa um lugar vantajoso, e assim uma opor­tunidade ou pretexto. Assim, a nossa liberdade em Cristo não deve ser usada como um pretexto para a auto-indulgência.

A liberdade cristã é liberdade do pecado, não liberdade para pecar. É uma liberdade irrestrita para aproximar-se de Deus como seus filhos, não uma liberdade irrestrita para chafurdar em nosso egoísmo. A Bí­blia na Linguagem de Hoje diz: “Porém vocês, irmãos, foram chama­dos para serem livres. Mas não deixem que essa liberdade se torne uma desculpa para se deixarem dominar pelos desejos humanos.” Na ver­dade, essa “liberdade”, uma licenciosidade desenfreada, não é liberdade alguma; é outra forma mais terrível de servidão, uma escravidão aos desejos de nossa natureza caída. Jesus disse aos judeus: “Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34). E Paulo nos des­creve em nossa condição antes da conversão como sendo “escravos de toda a sorte de paixões e prazeres” (Tt 3:3).

Em nossa sociedade de hoje temos muitos escravos desse tipo. Pro­clamam em altas vozes a sua liberdade. Falam de amor livre e vida li­vre. Mas, na realidade, são escravos de seus próprios apetites, aos quais deram rédea solta simplesmente porque não conseguem controlá-los.

A liberdade cristã é muito diferente. Longe de serem livres para sa­tisfazer a carne, os cristãos “crucificaram a carne, com as suas pai­xões e concupiscências” (versículo 24). Isto é, repudiamos totalmente as reivindicações de nossa natureza inferior para nos governar. Em uma imagem viva que Paulo empresta de Jesus, ele diz que nós a “crucifi­camos”, que a pregamos na cruz. Agora procuramos viver no Espíri­to, recebendo a promessa de que, se o fizermos, jamais satisfaremos a concupiscência da carne (versículo 16). Pelo contrário, o Espírito San­to vai produzir o seu fruto em nossas vidas, culminando com o domí­nio próprio (versículo 23).

 

  1. Liberdade Cristã Não É Liberdade para Explorar Meu Próximo (vs. 13b, 15)

 

O versículo 13 termina assim: sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. A liberdade cristã não é liberdade para fazer a minha vontade sem respeitar o bem-estar do meu próximo, nem tampouco fazer a mi­nha vontade para satisfazer a minha carne. É liberdade para me apro­ximar de Deus sem medo, não liberdade para explorar o meu próximo sem amor.

Na verdade, longe de ter liberdade para ignorar, negligenciar ou abusar do nosso próximo, recebemos ordem para amá-lo e, através do amor, servi-lo. Não podemos usá-lo como se fosse uma coisapara nos servir; temos de respeitá-lo como pessoa e nos dedicar a servi-lo. Atra­vés do amor temos de nos tornar “escravos” (a palavra grega é douleueté) uns dos outros, “não um senhor com uma porção de escravos, mas sendo cada um um pobre escravo com uma porção de senhores”, sacrificando o nosso bem pelo bem dos outros, e não o bem deles pelo nosso. A liberdade cristã é serviço, não egoísmo.

É um paradoxo notável, pois, de um determinado ponto de vista, a liberdade cristã é uma forma de escravidão: não escravidão para com a nossa carne, mas para com o nosso próximo. Somos livres em nosso relacionamento com Deus, mas escravos em nosso relacionamento com os outros.

Esse é o significado do amor. Se nos amamos uns aos outros, servimo-nos uns aos outros; e, se nos servimos uns aos outros, não nos “mordemos” nem nos “devoramos” uns aos outros (versículo 15) com palavras ou atos maliciosos. Morder e devorar são atos destrutivos, “uma conduta mais apropriada a animais selvagens do que a irmãos em Cristo”, ao passo que o amor é construtivo: ele serve. E Paulo prossegue mais adiante (versículo 22) descrevendo alguns dos sinais do amor, a saber, “longanimidade”, “benignidade”, “bondade” e “fi­delidade”. O amor é paciente para com aqueles que nos irritam e pro­vocam. O amor tem bons pensamentos e atitudes boas. O amor é leal, digno de confiança, fidedigno, confiável. Além disso, se nos amamos uns aos outros, “levamos as cargas uns dos outros” (6:2), pois o amor nunca é cobiçoso nem ganancioso. É sempre expansivo, nunca posses­sivo. Na verdade, amar uma pessoa não é possuí-la para mim, mas servi-la para ela mesma.

 

  1. A Liberdade Cristã Não É Liberdade para Ignorar a Lei (v. 14)

 

Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Devemos prestar muita atenção ao que o apóstolo escreve aqui. Ele não diz, como alguns dos “novos moralis­tas”, que se nos amamos uns aos outros podemos impunemente trans­gredir a lei no interesse do amor; pelo contrário, diz que se nos ama­mos uns aos outros devemos cumprir a lei, pois a lei se resume toda neste mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

Qual é o relacionamento do cristão com a lei? A chamada “nova moralidade” insiste nessa pergunta com certa urgência. É realmente verdade que Paulo nos diz que, se somos cristãos, fomos libertados da lei; não estamos mais debaixo da lei e não devemos nos submeter novamente ao “jugo da escravidão”, que é a lei (versículo 1). Mas de­vemos nos esforçar para captar o significado dessas expressões. Essa liberdade cristã que nos libertou da lei, a qual ele enfatiza, trata do nosso relacionamento com Deus. Significa que a nossa aceitação não depende de nossa obediência às exigências da lei, mas da fé em Jesus Cristo, que assumiu a maldição da lei quando morreu. Certamente não significa que estamos livres para ignorar a lei ou desobedecê-la.

Pelo contrário, embora não possamos ser aceitos por guardar a lei, depois que somos aceitos continuamos guardando a lei por causa do amor que temos a Deus, que nos aceitou e nos deu o seu Espírito para nos capacitar a guardá-la. Na terminologia do Novo Testamento, em­bora a nossa justificação não dependa da lei mas de Cristo crucifica­do, a nossa santificação consiste no cumprimento da lei. Cf. Romanos 8:3,4.

Além disso, se nos amamos uns aos outros como também a Deus, acabamos obedecendo à sua lei, pois toda a lei de Deus (pelo menos a segunda tábua da lei, que trata de nossos deveres para com o nosso próximo) se cumpre neste único ponto: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”; e o homicídio, o adultério, o roubo, a cobiça e o falso testemunho são todos infrações dessa lei do amor. Paulo diz amesma coisa em 6:2: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.”

 

Conclusão

Este parágrafo fala de maneira relevante sobre a situação contempo­rânea do mundo e da igreja, especialmente no que se refere à moderna “nova moralidade” e à moderna rejeição da autoridade. Dizrespeito ao relacionamento entre a liberdade, a licenciosidade, a lei e o amor.

Logo no começo ele nos diz que somos “chamados à liberdade”, liberdade essa que é paz com Deus, purificação de nossa consciência culpada através da fé em Cristo crucificado, a inefável alegria do per­dão, da aceitação, o acesso à filiação, a experiência da misericórdia sem méritos.

Prossegue descrevendo como essa liberdade dos sistemas de méri­tos se expressa em nosso dever para conosco, para com o próximo e para com Deus. Não é liberdade para satisfazer a carne, mas para con­trolar a carne; não é liberdade par explorar o próximo, mas para servi-lo; não é liberdade para ignorar a lei, mas para cumpri-la. Todos os que foram realmente libertados por Jesus Cristo expressam sua liber­dade dessas três maneiras: primeiro no domínio próprio, depois no amor e no serviço ao próximo e, em terceiro lugar, na obediência à lei do seu Deus.

Essa é a liberdade com a qual “Cristo nos libertou” (versículo 1) e para a qual fomos “chamados” (versículo 13). Devemos permanecer firmes nela, sem recair na escravidão, de um lado, ou na licenciosida­de, de outro.

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